Mostrando postagens com marcador drama. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador drama. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Argo

 Argo
(EUA, 2012) De Ben Affleck. Com Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arkin, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Clea DuVall e Kyle Chandler.

Ben Affleck começa a construir uma respeitada carreira de diretor após três longas-metragens bem sucedidos diante da crítica especializada e por fãs de cinema. Com “Medo da Verdade” e “Atração Perigosa”, Affleck conseguiu mostrar que podia ser mais do que um ator que estava, honestamente, em diversos filmes ruins como ator. Em “Argo”, ele entrega um filme maduro, com um roteiro que prende o espectador e ajuda a reconstruir um período um tanto obscuro da história americana, a ajuda do governo ao aiatolá Khomeini, do Irã e um plano mirabolante da CIA para resgatar reféns. O filme ganhou ainda mais reputação ao ser indicado ao Oscar e ao vencer o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama, batendo o favorito “Lincoln”. Claro que ajuda “Argo” ser baseado em uma operação que mostra os bastidores da produção de um filme, mesmo que falso.

Em 1980, seis americanos fogem da embaixada dos Estados Unidos no Irã durante uma rebelião e ficam refugiados na residência do embaixador do Canadá. Cabe à CIA retirá-los de lá antes que a ausência de seis funcionários seja notada e os EUA sejam acusados de espionagem. Dentre vários planos que parecem fadados ao fracasso, o agente Tony Mendez sugere uma ideia mais arriscada ainda: simular a produção de um filme de ficção científica, de nome “Argo”, que está procurando por locações em um lugar exótico, como o Irã. Apesar dos riscos, a operação é aprovada e Mendez vai contar com o apoio do diretor Lester Siegel, que concorda em sair da sua aposentadoria para ajudar no resgate aos reféns.

“Argo” é um thriller muito bem conduzido e produzido. As ruas de Teerã, as rebeliões e as ações envolvendo o governo americano e as operações no Irã são mostradas com muito realismo, envolvendo um tratamento na fotografia que confere uma aparência de filmes feitos no fim da década de 1970. Affleck usou como referências filmes como “Todos os Homens do Presidente”, entre outros com a mesma estética. Por conta disso, “Argo” confere uma autenticidade aos fatos narrados, agregando confiabilidade mesmo que seja um filme de ficção.

 

A tensão criada, especialmente nos minutos finais do filme, para os resgates dos reféns, é mérito de um conjunto de fatores, desde o roteiro escrito por Chris Terrio até a produção e as ótimas atuações, destacando-se Alan Arkin, indicado ao Oscar pelo papel de Lester Siegel, os intérpretes de iranianos e o próprio Ben Affleck, que recuperou o fôlego perdido em filmes ruins, como dito lá em cima. 

O filme foi indicado a sete Oscars e, apesar da boa campanha capitaneada pelo Globo de Ouro, “Argo” continua não sendo o favorito, mas tem boas chances de surpreender na cerimônia. Já é um feito grande para um diretor que, anos antes, tinha entregado uma performance imperdoável como o Demolidor. Mas algo até esperado de alguém que estreou como roteirista ganhando o Oscar por “Gênio Indomável”.

Nota: 9,0

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi


Life of Pi
(EUA, 2012) De Ang Lee. Com Suraj Sharma, Irrfan Khan, Adil Hussain, Tabu, Rafe Spall e Gerard Depardieu.

Ang Lee entregou bons filmes em sua carreira, à exceção de “Hulk” (2003). O diretor de “O Tigre e o Dragão” e de “O Segredo de Brokeback Mountain” tem como características uma sensibilidade rara e uma capacidade de passear sobre diversos temas com facilidade. Em “As Aventuras de Pi” não é diferente e ele consegue levar às telas uma linda história, apesar de fantasiosa. Neste caso, a fantasia se faz necessária ou não será possível acreditar que um garoto indiano ficou preso num barco à deriva com um tigre de bengala. O filme encanta por sua beleza visual, com cenas belíssimas, mas também pela história cativante que, verdadeira ou não, é inspiradora.

O jovem Piscine Patel – Pi, apelido que ele próprio inventou para fugir dos bullys – é o único sobrevivente do naufrágio que matou toda a sua família, quando o navio cargueiro em que eles estavam afundou. O navio transportava também os animais do zoológico da família Patel, que foi forçada a vendê-los porque a situação financeira estava ruim. Mas Pi não estava completamente sozinho. Quatro animais sobrevivem e passam a dividir com ele um único bote que restou do naufrágio. Uma zebra, um macaco, uma hiena e um tigre de bengala, chamado Richard Parker. Pi se vê numa difícil situação, mas faz de tudo para sobreviver e para preservar os animais, mas os instintos falam mais alto devido às dificuldades. O garoto precisa aprender a não perder a fé e a esperança, enquanto a morte parece ser iminente. 


Usando recursos visuais de primeira, Ang Lee consegue retratar toda a aventura de Pi, desde a fotografia usada para contar sua infância e adolescência aos magníficos efeitos visuais que proporcionam cenas maravilhosas, com ondas gigantescas, uma baleia imensa brilhando em meio ao plâncton do oceano e um tigre de bengala arisco. Interessante como o diretor consegue contar uma fábula moderna, sem cair no clichê da humanização dos animais, mas preserva as principais características destes, incluindo o instinto de sobrevivência.

A ingenuidade de Piscine, porém, é mérito do ator estreante Suraj Sharma em seu primeiro papel no cinema. Seu personagem é humilde e tranquilo, mesmo nas adversidades, e talvez a inexperiência do ator tenha sido fundamental para criar um personagem tão cativante.

O filme é baseado no livro escrito por Yann Martel e foi indicado a 11 Oscars, incluindo Melhor Filme, Diretor, Roteiro e Efeitos Visuais. Como toda fábula, “As Aventuras de Pi” tem uma moral ao fim, que pode se tratar tanto de reflexões pessoais, determinação, coragem ou uma metáfora para a existência ou não de Deus. O filme propõe uma tarefa: acreditar ou não na história de Pi Patel depende totalmente do seu ponto de vista sobre as coisas. E isso é aplicado também fora das telas, quando cada um percebe que a lição de moral que o filme passa se aplica a si da maneira que melhor servir. E um filme que nos faz refletir merece todos os méritos de ser visto e revisto.

Nota: 9,0
Efeitos 3D: 8,5

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Impossível


Lo Imposible
(Espanha, 2012) De Juan Antonio Bayona. Com Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Samuel Joslin, Oaklee Pendergast e Geraldine Chaplin.

Ninguém poderia esperar que, um dia após o Natal de 2004, um tsunami de proporções catastróficas iria atingir a costa da Indonésia, Sri Lanka, Tailândia e outros países banhados pelo Oceano Índico, deixando mais de 230 mil mortos e a lembrança de um dos maiores desastres naturais da humanidade. Oito anos depois, o diretor espanhol Juan Antonio Bayona leva às telas a história de uma família de sobreviventes que, como sugere o título, realizou o que parecia ser impossível e conseguiu se reunir, com vida, após a tragédia. Incrivelmente bem executado, “O Impossível” é um filme triste, por motivos óbvios, transmitindo com precisão a agonia dos personagens e o sentimento de desolação que as vítimas sobreviventes sentiram no fatídico 26 de dezembro.

O casal Maria e Henry, junto com os filhos Lucas, Thomas e Simon, vão passar as férias de Natal na Tailândia, um dos lugares mais paradisíacos do mundo. Após a celebração do Natal, no resort onde estão hospedados, a família se vê no meio do desastre, um tsunami com ondas de mais de 30 metros. Maria e o filho mais velho, Lucas, se separam do restante, mas conseguem sobreviver. Com muitos e graves ferimentos, Maria precisa de socorros médicos e é levada para uma base hospitalar montada de improviso para ajudar no resgate. Enquanto isso, Henry envia os filhos Thomas e Simon para outro abrigo para continuar sua busca pela mulher e pelo filho desaparecidos.



O roteiro escrito por Sergio G. Sanchez traduz a atmosfera do desastre, que é captado pelo drama dos protagonistas na busca pelos seus parentes. Enquanto os acompanhamos, é difícil não pensar em todas as outras vítimas, as sobreviventes e as que não tiveram a mesma chance, em todo o sofrimento e pânico causado pelas ondas. O esforço conjunto do roteiro, da direção de Juan Antonio Bayona (O Orfanato), da equipe de efeitos visuais e direção de arte, e dos atores conduz o filme à maestria.

Naomi Watts entrega um de seus papeis mais corajosos no cinema, com uma atuação impecável e comovente como Maria, uma mulher que, acima de tudo, luta com todas as forças pela sobrevivência do filho Lucas no meio da enchente provocada pelo desastre. O intérprete de Lucas, Tom Holland, também merece destaque, se firmando como uma das melhores atuações juvenis dos últimos anos, segundo alguns críticos.

Completando o time de atores, Ewan McGregor também entrega um desempenho comovente como o pai em busca de sua família, assim como as outras duas crianças do filme, Samuel Joslin e Oaklee Pendergast. A participação de Geraldine Chaplin é curta, mas também marcante. Juntos, o elenco transmite todo o drama real de milhares de pessoas. É neles que vemos refletida a garra, a coragem e a superação quando, na verdade, deveria haver só tristeza.
                                                                                   

“O Impossível” é um ótimo filme, com ótimas atuações. Tem bons efeitos especiais e éum espetáculo visual de, literalmente, tirar o fôlego. Mas é carregado e triste demais para ser assistido sem um aviso. Não há como não se transportar para o lugar daquelas pessoas e imaginar o que faríamos se estivéssemos na mesma situação. Por provocar essas experiências no espectador é que Juan Antonio Bayona acertou na mosca. Sem dúvida alguma, um dos melhores filmes do ano.

Nota: 9,5


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

360

360
(UK/França/Brasil, 2012) De Fernando Meirelles. Com Anthony Hopkins, Rachel Weisz, Jude Law, Maria Flor, Juliano Cazarré, Dinara Drukarova, Jammel Debbouze, Vladimir Vdovichenkov, Ben Foster, Marianne-Jean Baptiste e Lucia Siposová.

Fernando Meirelles se tornou internacional de vez. A prova disso é o seu mais novo trabalho, “360”, filmado em diversas partes do mundo, com atores de vários países, entre eles EUA, Inglaterra, França, Rússia e, claro, Brasil. Talvez os brasileiros estranhem a presença da atriz Maria Flor e do até ontem desconhecido Juliano Cazarré ao lado de nomes como Rachel Weisz e Anthony Hopkins. Porém, a discrepância entre os atores mostra justamente um lado cultural de cada país. Se por um lado temos uma pequena introspecção dos parisienses e americanos, por outro lado, os brasileiros mostram mais desenvoltura e os ingleses tentam se manter no mesmo espírito conservador. Em um dado momento do filme, uma psicóloga diz ao paciente que “já viu as pessoas se esconderem nas mais diferentes máscaras, mas conseguem realizar todos os seus desejos secretos”. “360” se mostra uma reflexão sobre a vida, mais do que apenas contar como a vida de várias pessoas é influenciada pelas atitudes de outras. 


Atenção, este parágrafo pode conter spoilers!: A eslovena Mirka acaba de ingressar em um mundo de prostituição através de uma rede na internet. Sua irmã Anna desaprova, mas ajuda a irmã a manter a identidade escondida da família. Sendo assim, Mirka assume a identidade de Blanka. Seu primeiro cliente, o britânico Michael Daly desiste do encontro ao pensar na esposa, Rose, que tem um caso com o fotógrafo brasileiro Rui. A namorada de Rui, Laura, foge para o Brasil após descobrir a traição do namorado e encontra John, um senhor que está à procura da filha. John se encanta por Laura, mas a garota está magoada e desiste de um jantar com John no aeroporto quando conhece Tyler, que está sendo transferido para uma casa de reabilitação. Sem saber que Tyler é um maníaco sexual, Laura tenta seduzir o rapaz, enquanto John voa ao que parece ser o encontro com a filha. Do outro lado do mundo, a russa Valentina, que frequenta os AA junto com John, se encanta pelo patrão, um dentista algeriano mulçumano que também se encanta por ela, mas Valentina é casada com Sergei, que trabalha para um mafioso russo, que se torna o próximo cliente de Blanka. 


A história, contada pelo roteirista Peter Morgan (“A Rainha”), dá uma volta ao redor do mundo para mostrar como pessoas diferentes podem ser influenciadas por decisões de desconhecidos. As histórias mostradas comovem o espectador, com uma narrativa soturna e triste, mas que em nenhum momento perde a vivacidade e se torna algo cansativo. Apesar do clima pesado, Fernando Meirelles consegue tornar as histórias leves, mas talvez esse seja o seu maior erro, o de não entrar no íntimo dos personagens o suficiente, deixando-os sempre na superfície. 

 O trabalho fica, então, por conta da interpretação dos atores, que concedem aos seus personagens as características que os cercam. Jude Law, Rachel Weisz e Anthony Hopkins são os perfeitos britânicos, enquanto Maria Flor exala uma brasilidade que os brasileiros conhecem tão bem – sobretudo os cariocas, tão receptivos a qualquer estranho. O elenco internacional varia desde o brilhante francês Jammel Debouze (“O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”), interpretando um muçulmano confuso com seus sentimentos, até a tcheca e desconhecida Lucia Siposová, como a aventureira Blanka. 

Meirelles trabalha mais uma vez com Daniel Rezende na montagem e aposta na fotografia do também brasileiro Adriano Goldman, que já trabalhou tanto em filmes nacionais como “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” quanto em internacionais como “A Condenação” e “Jane Eyre”. Ambos ajudam a construção da narrativa ágil. Apesar de ser um bom filme, “360” permanece raso em toda a projeção, deixando para o espectador imaginar mais a fundo a alma dos personagens e os dramas vividos. 

Nota: 8,0 



terça-feira, 17 de julho de 2012

Na Estrada

On the Road
(França, UK, EUA e Brasil, 2012). De Walter Salles. Com Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Kristen Dunst, Amy Adams, Tom Sturridge, Danny Morgan, Alice Braga, Elisabeth Moss e Viggo Mortensen.

Por Raphael Evangelista*

Após “Diários de Motocicleta”, o cineasta brasileiro Walter Salles se junta novamente ao roteirista José Rivera e retorna ao gênero do road movie no seu mais recente projeto estrangeiro, apresentando uma adaptação do romance norte-americano “On the Road”, do escritor Jack Kerouac. Já exibido no Festival de Cannes desse ano, o novo filme de Salles teve bom desempenho ao transportar para as telas a jornada de um grupo de amigos em busca de liberdade e de autoconhecimento. Apesar da expectativa, o filme não se concentra apenas na típica receita de um carro desbravando as estradas afora, mas sim no espírito jovem, na personalidade marcante e nas relações e experiências sentimentais entre seus personagens principais. Mas mesmo com um bom elenco, a produção de Francis Ford Coppola e uma história a principio empolgante, o longa-metragem acaba se tornando cansativo no seu desenrolar e parece se arrastar até um final clichê.

A história se desenvolve em torno de Sal Paradise (Sam Riley), um jovem burguês aspirante a escritor que, após o falecimento de seu pai, conhece e se aproxima do ex-prisioneiro Dean Moriarty (Garrett Hedlund). Sempre em busca de um bom roteiro para o seu livro, Sal acaba se aproximando cada vez mais de Dean, tornando-o um objeto de veneração, devido à mente aberta, vontade de conhecer o mundo e a moral inconstante do rapaz. Na companhia de seu novo amigo e sua jovem esposa Marylou (Kristen Stewart), o protagonista embarca em uma viagem de descobertas pelas estradas dos Estados Unidos, se aventurando em um mundo repleto de drogas, álcool e muito sexo. 


A película tem seus pontos altos e o diretor acerta em misturar cenas de dramaticidade com outras que rendem boas risadas. Vale destacar a cena inicial, que mostra a câmera acompanhando os pés do protagonista enquanto ele cantarola caminhando sobre o solo seco, e as cenas de nudez e sexo que não são nem um pouco gratuitas. Contando com um elenco que demonstrou ótimo desempenho, o espectador mergulha facilmente nas aventuras dos personagens, que desfrutam de sua jovialidade e se libertam de qualquer julgamento. O roteiro não se preocupa em dar explicações sobre seus personagens, ao invés disso prefere demonstrar suas personalidades através de suas experiências. Garrett Hedlund consegue um Dean Moriarty seguro de si e sedutor, enquanto que Kristen Stewart entrega um de seus melhores trabalhos, transportando a sensualidade e a paixão adolescente à sua Marylou, mostrando que talvez se dê melhor com personagens que mais se pareçam com ela. Kirsten Dunst também está bem na pele de Camille, assim como Viggo Mortensen na sua curta participação como Old Bull Lee.

No geral, “Na Estrada” é um filme bonito e consegue trabalhar bem as aventuras dos personagens, mostrando que algumas experiências são importantes na vida das pessoas, e dando uma grande lição no que diz respeito à evolução e na passagem para a vida adulta, principalmente sobre a amizade. A trilha sonora de Gustavo Santaolalla e a fotografia de Eric Gautier favorecem a beleza e o espírito do longa. O único problema que pode abalar toda a impressão do filme é sua duração, que parece se arrastar depois de sua primeira hora de projeção, aliado a um desfecho previsível em se tratando de uma jornada de um escritor que procura reunir boas histórias para o seu futuro livro. “Na Estrada” diverte e emociona com suas boas atuações, e cumpre o seu papel como adaptação de uma obra literária, talvez entrando para a lista dos melhores filmes de Walter Salles.

Nota: 8,0

 *A resenha foi escrita pelo parceiro Raphael Evangelista, em sua primeira colaboração aqui para o blog. Espero que seja a primeira de muitas!




quarta-feira, 30 de maio de 2012

O Exótico Hotel Marigold

The Best Exotic Marigold Hotel
(UK/Índia, 2011) De John Madden. Com Judi Dench, Bill Nighy, Maggie Smith, Tom Wilkinson, Dev Patel, Penelope Wilton, Ronald Pickup e Celia Imrie.

Não é sempre que um filme consegue reunir um time de atores veteranos em um mesmo filme, cada um mostrando seu vigor sem, necessariamente, apagar o brilho do outro. Esse espírito presente em “O Exótico Hotel Marigold” coloca Judi Dench, Maggie Smith, Bill Nighy, Tom Wilkinson, entre outros ‘sêniors’ do cinema em personagens que são exatamente o que eles são: sêniors.  Claro, cada um vive um drama, um personagem, mas estão todos absolutamente confortáveis nos seus papéis. “O Exótico Hotel Marigold” inspira e fascina, mostrando que, diferente de uma opinião formada pela humanidade, há certa vivacidade e energia na Terceira Idade talvez maior do que a de qualquer outra faixa etária. Visitar outra parte do mundo, encontrar um emprego, viver um novo amor ou correr atrás do antigo. Tudo isso é possível, talvez mais possível do que em qualquer outra época, já que a experiência proporciona isso.

O filme narra a trajetória de sete pessoas rumo a um novo projeto na Índia, destinado a fornecer o melhor serviço a idosos, o Exótico Hotel Marigold Para os Idosos e Lindos (numa tradução livre). Evelyn foi dona de casa a vida toda e se muda após que vendeu sua casa para pagar dívidas do falecido marido; Graham é um juiz aposentado que retorna à Índia em busca de seu amor do passado; o casal Douglas e Jean Ainslie fica sem dinheiro após emprestar uma quantia para o negócio da filha; Norman e Madge são os típicos solteirões que querem aproveitar a vida e todas as possibilidades; e Muriel, preconceituosa e conservadora, só aceita se mudar para a Índia para conseguir uma cirurgia na coluna mais barata. Juntos, eles serão os primeiros hóspedes do Marigold, regido pelo jovem espirituoso Sonny, que quer seguir os passos do pai, mas é desacreditado pela mãe e sua família. Todos irão passar por novas experiências, descobertas pessoais e por transformações que nunca experimentariam passar na idade deles, resultando num belíssimo mosaico de histórias.
 

 O roteiro de Ol Parker, baseado no livro These Foolish Things, dá o tom correto de envolvimento com cada uma das histórias, sem que uma ofusque a outra. Claro que o mérito também é do excelente time de atores que fizeram seu nome após anos de atuação. Destaque para Tom Wilkinson, que encara com naturalidade representar certo tabu na história (não contarei, porque seria um baita spoiler), e para Bill Nighy, finalmente sem nenhuma maquiagem representando um personagem comum. Judi Dench e Maggie Smith, como sempre, dispensam elogios, uma vez que sempre executam seus papeis com maestria. Dame Smith, com sua personagem presa a uma cadeira de rodas, dá um show, assim como Dench, que exala uma vivacidade ímpar. 

 As cores e contrastes de uma Índia não badalada, à la Quem Quer Ser Um Milionário?, complementam a trama, causando a estranheza natural e dando ao espectador a mesma sensação de deslocamento dos personagens. O diretor John Madden, de Shakespeare Apaixonado, acerta ao misturar os universos indiano e britânico. Para o expectador, ficam uma grande lição de vida e a emoção com grandes histórias que se cruzam. 

Nota: 9,0


terça-feira, 22 de maio de 2012

Paraísos Artificiais

 Paraísos Artificiais
(Brasil, 2012). De Marcos Prado. Com Nathália Dill, Luca Bianchi, Lívia de Bueno, César Cardadeiro, Bernardo Melo Barreto.

De tudo que pode ter sido feito no Brasil recente, “Paraísos Artificiais” é, no mínimo, original. A história foge de tramas convencionais comuns no nosso cinema e envereda pelo mundo das raves, das drogas e de uma juventude confusa e perdida, situação cada vez mais frequente na nossa sociedade. No entanto, o filme peca ao perder a originalidade em certo ponto e cair no clichê da história de amor bobinha, sobretudo quando tal história é sustentada por personagens vazios e sem objetivo na vida a não ser “zoar”, curtir o momento, viver a vida enquanto se está vivo. Aqui, acabo por colocar um tom pessoal na crítica do filme – coisa que raramente faço. Para quem veio de uma realidade um tanto quanto diferente da mostrada do filme, é difícil conceber que existam tantos filhinhos de mamãe e papai, que não gastam um centavo do próprio dinheiro (uma vez que ele não existe) e caem no mundo atrás da onda perfeita, participando de festas Brasil afora, a ponto de não ter um pingo de responsabilidade com a própria vida ou futuro. E se o filme nos obriga a entrar em contato com esse mundo, onde ir para Amsterdã “dar uma volta” é comum, é de se envergonhar que um filme insista em apresentar esse mundo, sem um pingo de crítica social. Mas eu divaguei. Sobre o quê é o filme mesmo?


Nando acaba de sair da cadeia e retorna ao convívio da família, um pouco destruída após a prisão dele e da morte do pai. Com seu retorno, ele começa a relembrar o passado, como a viagem para Amsterdã que proporcionou o encontro com Érika, uma DJ brasileira em turnê pela Europa. Lá, Érika sabe que já viu Nando anteriormente, mas o rapaz não se recorda. É quando entramos em um flashback, que mostram eventos de quatro anos antes, quando Érika ainda era uma DJ iniciante tocando em uma rave brasileira numa praia nordestina e apaixonada por Lara, sua amante e melhor amiga. Nando está na mesma festa, regada a bebidas, drogas, música eletrônica e meditação. O destino de Érika, Nando e Lara muda com essa festa, provocando uma série de eventos que nenhum dos três jamais imaginara.

Bem filmado e montado, com uma trilha sonora baseada na música eletrônica que embala bem a trama, “Paraísos Artificiais” impacta o espectador com a história dos protagonistas, mas esquece de aprofundar a história e o caráter dos personagens. Do elenco, Nathália Dill se destaca como a perturbada Érika, despindo-se de qualquer pudor para encarnar as cenas mais picantes exigidas pelo roteiro. Sim, há nudez mas ela não é gratuita, um dos pontos positivos do filme. O problema é a própria personagem, a desconjuntada Érika, que se aventura por drogas alucinógenas e se perde nos próprios pesadelos, que mais confundem do que ajudam o espectador. 

Filme de estreia do produtor Marcos Prado, parceiro de José Padilha em filmes como “Ônibus 174” e “Tropa de Elite”, “Paraísos Artificiais” dá o seu recado de forma eficiente, mostrando de forma incisiva as consequências de se deixar levar pelo dinheiro fácil e pelas drogas. Porém, ao romantizar a história, o sentido se perde fazendo com que a trama termine sem um desfecho apropriado.


Nota: 6,5


terça-feira, 8 de maio de 2012

Sete Dias com Marilyn


My Week With Marilyn
(EUA, UK/2011). De Simon Curtis. Com Michelle Williams, Kenneth Branagh, Eddie Redmayne, Emma Watson, Julia Ormond, Dominic Cooper e Judi Dench.

Quando Sir Lawrence Olivier finalizou as finlmagens de “O Príncipe Encantado”, primeiro e único filme de Marilyn Monroe fora dos Estados Unidos, ele ficou tão aborrecido com o jeito e a forma de atuar da atriz, que se afastou um bom tempo da direção de filmes. Aparentemente, a forma de trabalhar de um grande deus britânico  da atuação não combinava com a forma suave e provocante de uma estrela hollywoodiana. Pelo sim ou pelo não, a relação dos dois não afetou Lawrence, que não deixou de ser quem é, mas Marilyn cresceu. Cresceu tanto que não cabia em si. Era outra. Uma personagem em tempo real, full time, ativa 24 horas do dia. Tanto que assusta vermos um deslumbre da Marilyn real em “Sete Dias com Marilyn”, que conta como o assistente de direção Colin Clark se envolve com a musa loira durante as filmagens de “O Príncipe Encantado”.


O filme foi o primeiro bancado pela produtora de Marilyn Monroe e, talvez por isso, Lawrence Olivier tenha aguentado toda a pressão. No filme vemos uma pessoa insegura com o modo duro e sem mobilidade do estilo de atuação britânico, alguém que duvida da sua capacidade diante da adversidade imposta por uma grande figura do cinema/teatro. Marilyn Monroe era, antes de tudo, uma pessoa frágil que precisava mostrar todo o vigor necessário para uma estrela de cinema. Seu relacionamento com Colin Clark, o protagonista da história que se vê confuso entre a passageira história de amor com a atriz e a possibilidade real de namorar a figurinista do filme – só denota o quanto ela precisava de atenção exclusiva. Tudo que sentia falta era ser amada pelo que ela era, e não pelo que Marilyn representava.

Da mesma forma, Colin ( e todos os homens ao redor dela, incluindo Olivier) se deixam levar pelo seu encantamento que hipnotizava. Não à toa, Marilyn Monroe se tornou um dos maiores ícones da história do cinema. Toda essa pressão resultou na morte precoce da atriz, aos 33 anos.

O filme de Simon Curtis recria o universo dos sets de filmagens, com toda a austeridade de Olivier e traduz a verdadeira atmosfera da época, desde o fascínio pela indústria ao culto às celebridades. Michelle Williams, mesmo não parecida fisicamente, expõe Marilyn da cabeça aos pés, em uma atuação assombrosa que lhe rendeu a indicação ao Oscar esse ano. Ela consegue transparecer as várias faces da diva, desde a poderosa presença da atriz em um palácio britânico à melancolia profunda por ter sido abandonada pelo marido em um país desconhecido.

Kenneth Brannagh como Sir Lawrence Olivier personifica o verdadeiro lorde inglês em seu desempenho. Sua atuação também lhe rendeu uma indicação ao Oscar na categoria Ator Coadjuvante.  Vale lembrar que os dois atores interpretaram Hamlet no cinema, então já tem traços de atuação em comum, o que facilitou ainda mais a caracterização de Brannagh, que provavelmente cresceu admirando os papeis de Sir Lawrence no cinema.

Após os fatos apresentados em “Sete Dias Com Marilyn”, baseado no livro homônimo escrito pelo próprio Colin Clark, Marilyn Monroe estrelou “Quanto Mais Quente Melhor”, considerada uma das melhores comédias de todos os tempos. Antes disso, ela já era uma estrela completa após os filmes “O Pecado Mora ao Lado” e “Os Homens Preferem as Loiras”. Se pudéssemos resumir o filme (tarefa impossível) em uma frase, uso uma dita no próprio filme. “Lawrence Olivier era um grande ator tentando ser uma estrela de cinema. Marilyn era uma grande estrela de cinema tentando se tornar uma grande atriz”. Porém, ela não precisava treinar, já que era seu charme natural a principal arma de sua atuação.

Nota: 9,5


 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Shame

Shame
(EUA, 2011) De Steve McQueen. Com Michael Fassbender, Carey Mulligan e Nicole Beharie. 

Ao assistir a “Shame”, dá pra entender porque a Academia deixou o filme fora do Oscar. Talvez o conservadorismo exagerado em uma organização que, aparentemente, pretende se manter moderna, tenha bloqueado na premiação toda e qualquer exposição do filme, que fala sobre dependência de sexo. Uma pena, já que o filme de Steve McQueen é uma obra instigante e que permite discutir o tema da maneira correta. O longa transmite a angústia e o sofrimento do personagem de Michael Fassbender, ao apresentar o sexo por compulsão como algo degradante e repulsivo, apesar das cenas intensas e explícitas, a um passo da pornografia. O que diferencia o filme disso é a própria narrativa. Aqui, as cenas de sexo e nudez se justificam na maioria das vezes para retratar a natureza do personagem e da história.

Brandon (Fassbender) é um executivo de Nova York que mora sozinho, mas vê sua vida afetada por seu vício em sexo. O comportamento influencia na forma como ele interage com outras pessoas, seja colegas de trabalho ou o próprio chefe. O mundo de Brandon dá uma sacudida quando sua irmã, Sissy (Carey Mulligan), aparece em seu apartamento sem aviso prévio (apesar das insistentes ligações telefônicas dela para avisá-lo). Sissy é deslocada e também tem seus distúrbios e isso mexe ainda mais com Brandon, que vê o seu vício se complicando à medida que os sentimentos e confusões mentais se afloram.


 A cada nova cena, desbravamos um pouco do universo de Brandon e sua irmã. Várias passagens são icônicas e captam com exatidão a angústia dos personagens, como a cena em que a personagem de Carey Mulligan canta “New York, New York” em um bar. A relação de Brandon com ela, a cidade e consigo mesmo estão estampados no olhar de Michael Fassbender, que entregou sua melhor atuação até o momento e mostra porque é o ator requisitado que se tornou nos últimos anos. Por conta de seu problema, Brandon se torna incapaz de se relacionar profundamente com outras pessoas, acumula pornografia no computador da empresa, se envolve com diversos parceiros e é fechado para a própria irmã. Toda essa gama de sentimentos complexos é expressa já na cena inicial, que mostra Fassbender deitado, na cama, olhando para o vazio enquanto a câmera o filma de cima. 

A trilha sonora de Harry Escott, marcante e melancólica, dá o tom perfeito para o incômodo natural do espectador ao ver uma cena de sexo e perceber a tortura interna do personagem. A trilha, associada ao roteiro de McQueen e Abi Morgan, e à atuação brilhante de Fassbender criam uma atmosfera única que consegue trazer a reflexão sobre um tema tabu ainda no século XXI e fazer com que o mais natural dos instintos humanos (o sexo) se torne uma experiência tão prazerosa e, ao mesmo tempo, degradante.

Nota: 9,0