quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Inverno da Alma

Winter’s Bone

(EUA, 2010) De Debra Ganik. Com Jennifer Lawrence, John Hawkes e Garret Dillahunt

“Inverno da Alma” foi o primeiro filme que eu ouvi sendo chamado de favorito para o Oscar, isso em janeiro de 2010, quando o longa estava em exibição no Festival de Sundance, onde ganhou o Grande Prêmio do Júri. Desde então o filme fez uma grande carreira pelos festivais mundo afora, o que surpreendeu até quem participou da produção. O trunfo do filme está, a meu ver, em duas coisas: na forma como é retratada a vida nas montanhas no interior dos EUA, quase como se não houvessem leis, e a interpretação de Jennifer Lawrence, que já havia brilhado em “Vidas que Cruzam” e dá mais uma mostra do seu talento. Só. Porque, francamente, esperava mais de “Inverno da Alma”.

Ree Dolly é uma jovem de 17 anos que tem que cuidar da sua família após a debandada do pai, em liberdade condicional, mas que está foragido. Ela, seus dois irmãos e sua mãe, que está doente e incapaz, correm o risco de perder a casa onde vivem, quando o xerife local conta que o pai ofereceu a casa como garantia da fiança. Como ele não compareceu à sua última audiência, a casa será tomada. Ree decide ir então ir atrás do pai e acaba descobrindo que ele estava envolvido com tráfico de drogas e metanfetaminas. A todo lugar que vai, ela recebe avisos de que deveria se manter fora desse assunto, até mesmo de seu tio, Teardrop, que sabia com que o irmão estava envolvido. Mas, pela integridade de sua família, Ree decide continuar sua busca, sem a menor ideia do que pode encontrá-la no fim.

Apesar de ser um bom thriller que acompanha a rotina de Ree tentando ser uma jovem normal, apesar de ela mesma saber que não tem como ser por causa de suas responsabilidades, “Inverno da Alma” acaba sendo fraco. Nenhum dos personagens, À exceção de Ree e seus dois irmãos é capaz de cativar a plateia e o enredo se perde no meio pra deixar a busca pelo pai e seus crimes de lado – fatos, aliás, que nem são tão bem esclarecidos. Chegando ao desfecho, que pretende ser surpreendente, mas não cumpre esse papel, a impressão é de que nada mudou muito e que tudo não passou de um momento complexo na vida daquela família, quase como um sonho.

O destaque do filme é mesmo a atuação de Jennifer Lawrence, cuja personagem passa por maus bocados praticamente o filme inteiro e ela exala uma coragem necessária para enfrentar as adversidades impostas. Aos 20 anos, Lawrence pode se orgulhar do trabalho e de sua indicação ao Oscar. “Inverno da Alma” é intimista e mostra um ambiente um tanto quanto desconhecido para americanos e estrangeiros. Uma sensação de insegurança acompanha todo o filme e isso é bom, mas o roteiro peca por evitar a profundidade e preferir sentimentos mais superficiais, com uma lição moral tipo “não importa o que aconteça, faça a coisa certa”.

Nota: 7

*Indicado ao Oscar de Melhor Filme, Atriz (Jennifer Lawrence), Ator Coadjuvante (John Hawkes) e Roteiro Adaptado.

Mais uma Vez Nicole

Nicole Kidman é uma daquelas atrizes que sempre vai ter o seu nome lembrado por uma época de bons papeis no cinema. Uma época pós-“Moulin Rouge”, em que a atriz era a principal cotada para dez entre dez filmes. Indicada ao Oscar pelo papel de Satine no musical, e depois vencedora em “As Horas”, ela chegou a engrenar três, quatro filmes por ano de uma vez só.

Pois bem, o que poderia ser um mar de rosas se transformou em um pequeno martírio, quando vimos Nicole ser referência em filmes que renderam pouca bilheteria e com papeis mais fracos do que estávamos acostumados. Daí veio uma excessiva crítica negativa por parte da imprensa, o que levou a crer que a atriz estava em fim de carreira. Mas nada disso.

Kidman arrebatou mais uma indicação para a sua coleção com “Rabbit Hole – Reencontrando a Felicidade”, um drama familiar que traz de volta a melhor essência da atriz para as telas. O filme está sendo considerado uma “volta” de Kidman, que teve pouco reconhecimento em “Nine” (o elenco era estrelar e, convenhamos, o filme nem era tão bom assim) e não se saiu muito bem em “Austrália” (outro filme superestimado).

Pra mim, falar que essa indicação marca uma volta de Nicole é besteira, porque ela nunca foi embora. Sempre esteve aí, mesmo em papeis mais fracos. Ela não vai ganhar o Oscar porque a estatueta é de Natalie Portman, fato. Agora, que essa é uma ótima chance pra ela voltar e brilhar em papeis dignos de sua grandeza, isso sem dúvida.

Os cinco melhores papeis de Nicole Kidman* (na minha opinião):

1 – Virginia Woolf, em “As Horas”;

2 - Grace Margaret, em “Dogville”;

3 – Satine, em “Moulin Rouge – Amor em Vermelho”;

4 – Margot, em “Margot e o Casamento”;

5 - Grace, em “Os Outros”.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Foto de Meryl Streep como Margareth Tatcher

Dando uma paradinha no assunto Oscar 2011. Saiu hoje mesmo uma foto de Meryl Streep caracterizada como a ex-primeira ministra britânica Margareth Tatcher, para o filme “The Iron Lady”, traduzindo, A Dama de Ferro, como Tatcher era conhecida.
O filme, dirigido por Phillipa Lloyd, que trabalhou com Meryl em “Mamma Mia!”, vai focar no trabalho da premiê durante a Guerra das Malvinas, em 1982. Mais alguém anseia pra ver a atriz com sotaque britânico? Mais alguém sente cheiro de Oscar – ou indicação – em 2012?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

E agora? “Como Treinar Seu Dragão” eleito a melhor animação no Annie Awards


Se existe algum favorito absoluto para receber o prêmio de melhor animação no Oscar, esse filme é “Toy Story 3”, certo? Até porque, o longa está indicado a Melhor Filme, meio impossível de não ganhar. Já até escrevi aqui sobre isso. Pois, pera lá, devagar com o andor. Neste domingo, dia 6 de fevereiro, aconteceu a premiação do Annie Awards, voltado apenas para animação e o escolhido como melhor filme foi “Como Treinar Seu Dragão”!

Tá certo que, apesar de referência em animação, o Annie é um tanto quanto duvidoso. Premiaram “Kung Fu Panda” no lugar de “Wall-e” há dois anos atrás e isso deixou o povo da Disney/Pixar meio nervoso. Pediram mudanças nas regras e alegaram que a Dreamworks, estúdio responsável por “Shrek”, “Panda” e “Dragão”, tem ligação direta com os jurados. Este ano, mesmo com indicações a “Toy Story 3” e a “Enrolados”, a Disney/Pixar boicotou o Annie.

Resultado: “Como Treinar Seu Dragão” levou tudo a que tinha direito na premiação, enquanto “Toy Story 3” saiu chupando o dedo. Rusgas à parte, “Toy Story 3” já tá ganhando tudo mesmo, “Dragão” merece esse prêmio, vai! Até porque, a história do menino Soluço que se tenta mostrar à sua aldeia que dragões não são tão ruins assim, depois do seu encontro com o temido Fúria da Noite (ou Banguela), é muito boa. “Dragão” só perde mesmo para “Toy Story 3” em apelo ao público, porque não deve nada em roteiro, trilha sonora ou técnicas de animação. É talvez o melhor filme de animação da Dreamworks desde “Shrek 2”.

Indicado a dois Oscars, duvido que o filme saia com alguma estatueta, mas só o reconhecimento do Annie acho que já valeu. O que aconteceu com “Wall-e” foi mesmo uma injustiça, porque “Kung Fu Panda” é legal mas não pode ser comparado. Já o que aconteceu esse ano, bem, “Toy Story 3” vai ter que simplesmente engolir essa.

*"Como Treinar Seu Dragão" - Indicado ao Oscar de Melhor Animação e Trilha Sonora

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Cisne Negro

Black Swan
(EUA,2010) De Darren Aronofsky. Com Natalie Portman, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Mila Kunis e Wynona Rider.

"O Lago dos Cisnes" é provavelmente a encenação de balé mais famosa do mundo, já tendo sido interpretada inúmeras vezes no teatro, no cinema e na televisão. Mesmo assim, pouquíssimas pessoas sabe do que se trata a história. É um conto sobre uma donzela que é transformada por feitiço em um cisne branco, sendo que o feitiço só será quebrado pelo amor verdadeiro. Quando um príncipe se aproxima, a irmã gêmea do cisne branco, o cisne negro, o seduz e conquista, levando o cisne branco a pular de um precipício, de desgosto, encontrando enfim a liberdade. A história, dramática por si só, ganha contornos incríveis em "Cisne Negro", onde o personagem "do mal" é o responsável pela tensão da personagem de Natalie Portman, a bailarina que tenta a perfeição de qualquer maneira. E é nessa maneira de encontrar a sua própria perdição, em prol de um papel, que está o brilhantismo do filme.

Nina é uma bailarina que está em uma companhia de dança em vias de se reerguer. Para a volta triunfal, o diretor da companhia, Thomas, escolhe uma releitura de "O Lago dos Cisnes" e para isso promove uma renovação no corpo principal de bailarinos. A veterana Beth sai de cena para dar lugar a uma novata, que viria a ser Nina. O problema é que Nina está tão obcecada com a perfeição dos passos de dança que não consegue deixar de ser tão certinha. Ao ser escolhida para interpretar os papeis principais, o Cisne Branco e o Cisne Negro, Nina encontra um desafio: sua parte graciosa interpreta um perfeito Cisne Branco, mas o Negro exige muito mais dedicação, porque envolve se deixar levar pela dança mais do que a disciplina. Será que ela consegue encontrar o Cisne Negro nas partes mais profundas da sua alma? Enquanto isso, a obsessão pelo papel se materializa em tudo o que ela faz, deixando-a ainda mais perturbada sobre como ser a bailarina perfeita.

"Cisne Negro" é um filme impecável. Só a abertura do longa vale o ingresso pago. As palavras fogem para descrever a maneira como a história se desenrola, mostrando a bailarina Nina evoluindo a cada segundo, cada vez mais perto de entender o que é preciso para deixar o Cisne Negro aflorar. O filme fala sobre obsessão e sobre como a inveja e a ambição podem afetar o comportamento das pessoas, mas não só sobre isso. Chega a ser difícil delimitar a gama de coisas que "Cisne Negro" poderia ser, sendo que na essência é simplesmente sobre a complexidade do comportamento humano. E é aí que os humanos entram, especialmente Natalie Portman.


A atriz é a alma do filme, sem dúvida, mas a interpretação visceral dela, dando tudo de si em passos de balé, em esforço, em suor, é assombrosa. Natalie mostra a fragilidade de Nina durante todo o filme. O modo como a bailarina se mostra oprimida e pressionada, pelo balé, pelas colegas, pelo diretor, pela mãe, enfim, toda a pressão que ela podia sofrer é visível aos olhos do espectador, mas não tão visível quanto a transformação do cisne branco no Cisne Negro (sem mais palavras para não estragar a surpresa). Natalie se mostra um assombro na tela, como uma atriz pronta a ganhar ainda mais bons papeis no cinema. E nas palavras dela própria sobre "Cisne Negro", o filme "foi perfeito".

Aliás: "Cisne Negro" pra Melhor Filme no Oscar! E tenho dito!

Nota: 10






*Indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Atriz - Natalie Portman, Melhor Direção - Darren Aronofsky, Roteiro Original, Edição e Fotografia.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Natalie Portman


Com a estreia de "Cisne Negro" nos cinemas brasileiros, o público daqui finalmente vai poder conferir (legalmente) a performance de Natalie Portman que tanto tem sido comentada no ano que passou. Dirigida por Darren Aronofsky, Portman pode ganhar o seu primeiro Oscar, mas nós já sabemos que ela é uma das melhores atrizes da atualidade. Não precisamos de um Oscar pra isso.

Nascida em Israel, ela se mudou com os pais para Nova York quando ainda era muito pequena. Natalie atua desde criança no cinema, com apenas 11 anos. Sua primeira grande aparição foi no filme "O Profissional", em que contracena com o ator Jean Reno, e desde então ela dá sinais de que tinha um incrível talento.

A atriz foi experimentando pequenos papeis em alguns outros filmes como "Fogo Contra Fogo" (1995), "Brincando de Seduzir" e "Marte Ataca!" (1996), este último de Tim Burton. Mas foi em 1999 que Natalie saiu do pseudo-anonimato para o estrelato mundial, entrando em uma das franquias mais cultuadas do cinema - se não a mais cultuada. Ela foi escolhida para ser ninguém menos que rainha Amidala em "Star Wars - Episódio I: A Ameaça Fantasma", (re)início da saga "Guerra nas Estrelas" nos cinemas.

Daí pra ser convidada para outros papeis foi um pulo. Ela esteve em "Cold Mountain" (2003) e em "A Voz do Coração" (2000), alem dos outros filmes da franquia Star Wars. Mas até então, o nome Natalie Portman era pouco lembrado. Isso mudou após uma das performances mais marcantes de sua carreira em "Closer - Perto Demais"(2004), que lhe rendeu o Globo de Ouro de atriz coadjuvante e sua primeira indicação ao Oscar, além de colocá-la na condição de estrela.

Dentre seus papeis mais marcantes está a viajante que entra no caminho de Norah Jones em "Um Beijo Roubado"(2007), de Wong Kar Wai, a rainha Ana Bolena em "A Outra" (2008) e a jornalista Eve, em "V de Vingança" (2006), papel pelo qual ela teve que raspar a cabeça. Recentemente ela esteve em "Entre Irmãos" (2009) e agora está em outro filme causando burburinho lá fora, a comédia "Sexo sem Compromisso", com o fanfarrão Ashton Kutcher.

Praticamente, só Annette Benning tem condições de arrancar o Oscar de Natalie Portman na noite do dia 27 de fevereiro. Mas, considerando o histórico da Academia, uma atriz jovem, promissora e sem premiações tem mais chances do que uma veterana calejada da indústria, a não ser que o papel seja inegavelmente superior - o que não é exatamente o caso. No caso da vitória de Portman, talvez seja uma das premiações mais justas de toda a história do Oscar.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Um Lugar Qualquer


Somewhere

(EUA, 2010) De Sofia Coppola. Com Stephen Dorff e Elle Fanning.

“Um Lugar Qualquer” já nasceu cercado de falatório. O principal motivo, lógico, é por ser um filme de Sofia Coppola, diretora que ficou rapidamente cultuada com tão pouco trabalho no cinema. Em segundo lugar, o fato de o filme ter ganho o Leão de Ouro no Festival de Veneza ano passado. A premiação em si seria motivo suficiente para repercussão, não fosse a suspeita de favorecimento do prêmio pelo presidente do júri, Quentin Tarantino, ex-namorado de Sofia. Circo armado, expectativas lá em cima pra conferir se o filme merecia o prêmio ou não. Depois de assistir ao filme, eis o meu veredicto: merecia, pero no mucho.

Stephen Dorff interpreta Johnny Marco, um ator de Hollywood que vive em Los Angeles no meio de uma vida regada a festas, mulheres e bebedeiras. Ele começa a repensar toda a sua vida quando sua filha de 11 anos, Cleo, vêm passar um fim de semana com ele, em plena campanha de divulgação de seu novo filme. Apesar do glamour, a vida do ator se mostra muito mais deprimente e solitária do que qualquer um poderia imaginar e isso acaba por se refletir também na vida de Cleo.

Cheio de cenas sem diálogos, paradas em alguma imagem sem sentido, e com pouca narrativa geral, “Um Lugar Qualquer” decepciona. Isso porque todo mundo espera mais de Sofia Coppola quando um filme seu é anunciado – culpa dela, claro. Neste filme ela repete muita coisa da fórmula de “Encontros e Desencontros”, filme que a elevou ao status de gênio e pelo qual ela foi indicada ao Oscar. Não vemos um pingo de originalidade, apesar da boa história e dos bons elementos utilizados por ela.

No filme, também se destaca a facilidade que ela tem de incorporar elementos da cultura pop, também vista nos seus outros trabalhos, além de mostrar discretamente os bastidores da vida “quase” glamurosa de um astro de Hollywood. Apesar disso, é no drama que se foca o filme, mostrando a relação entre os personagens de Stephen Dorff e Elle Fanning, maravilhosa no papel.

Pena que Coppola nos tenha acostumado mal. A cada novo trabalho, o público enxergava algo novo e criativo na diretora, vide como “As Virgens Suicidas”, “Encontros e Desencontros” e “Maria Antonieta” são diferentes entre si. Será que teria ela caído em um enfadonho marasmo da carreira, assim como aconteceu como outros “gênios” como M. Night Shayamalan? Longe de mim querer comparar os dois, não sou louco a esse ponto, mas todo esse brilhantismo antecipado faz pensar. Apesar da boa condução da história – e da história em si – falta algo em “Um Lugar Qualquer”. Talvez, falte exatamente um lugar.

Nota: 7,0