sábado, 11 de fevereiro de 2012

Top 10 - Filmes mudos importantes do cinema

Então, finalmente estreou “O Artista” em terras brasileiras, principal favorito na corrida ao Oscar 2012 e não surpreende, já que o filme traz um tom saudosista de uma época de Ouro que o próprio Oscar chegou a participar, mesmo que não integralmente: o cinema mudo. Mais especificamente, o cinema mudo e preto e branco como única opção disponível. O cinema mudo moldou a linguagem do cinema em uma época onde a ausência de diálogos sonoros faziam os roteiros terem ainda mais importância. “O Artista” é a prova disso, em pleno século XXI. Por isso, vou listar aqui dez importantes filmes da era do cinema mudo. Filmes que sempre são lembrados como pioneiros, emocionantes e especiais para a época e para o cinema. Como sempre falo nos Top 10, a lista é completamente subjetiva e foi construída a partir de várias outras listas e estudos feitos em livros e internet. Óbvio que terão ausências, mas fiquem à vontade para citá-las nos comentários.

10 - A Paixão de Joana D’Arc
netti. (The Passion of Joan of Arc, 1928)
De Carl Theodore Dreyer, com Renee Maria Falco

Este é o primeiro (de muitos) filme feito sobre a história da guerreira Joana D’Arc, praticamente um dos responsáveis por reforçar, no início do século XX, o seu caráter de mito. Para se ter uma ideia de sua importância, a interpretação de Renee Maria Falconetti é considerada uma das melhores atuações já registradas em película de todos os tempos. Os negativos originais do filme ficaram perdidos por décadas, até serem encontrados em um sanatório na Noruega, em 1981.
  
+ O filme ficou famoso pelo estilo de filmar do diretor, priorizando os closes no rosto dos atores. Tanto é que Carl Theodore Dreyer optou pelo não uso de maquiagem, algo incomum para o cinema em geral, para captar melhor as feições dos personagens. O realismo era tanto que em uma das cenas, onde cortam o braço de Joana D’Arc, o diretor usou sangue de verdade, coletado do braço de um figurante.

9 - A General
(The General, 1926)
De Buster Keaton.

Uma das principais comédias de Buster Keaton, o gênio do riso do cinema mudo americano dos anos 1920, foi também o último longa-metragem assinado por ele. No filme Keaton interpreta Johnny, um homem convocado para servir na Guerra Civil Americana como maquinista da locomotiva General. Porém sua amada Annabelle e sua família o consideram um covarde por não ir lutar. A reviravolta se dá quando tanto Annabelle como a General são sequestradas e Johnny tem que ir ao resgate de suas duas paixões.

+ O filme é baseado em uma história real. Em 1862, durante a Guerra Civil, soldados invadiram o campo dos confederados e sabotaram alguns armamentos do exército, terminando a ação com o sequestro da locomotiva “General”. Assim como no filme, os confederados tiveram que invadir o campo inimigo e trazer a locomotiva de volta.

8 - Nanook do Norte – ou Nanook, o Esquimó
(Nanook the North, 1922)
De Robert Flaherty.

É considerado o primeiro documentário em longa metragem produzido e é um marco do gênero. O diretor filmou o cotidiano do esquimó Nanook, no Ártico, desde a construção de um iglu até a caça às morsas. O filme se tornou uma grande referência antropológica para o estudo das relações mantidas pelos esquimós no Polo Norte, mostrando os seus costumes, algo até então pouco conhecido.

+ Apesar de as situações serem reais, Flaherty foi acusado de distorcer o cotidiano dos esquimós e falsificar algumas informações, a começar pelo nome de Nanook, que na verdade era Allakariallak. Além disso, o costume já era usar armas de fogo em atividades de caça, mas o diretor fez com que os esquimós usassem arcos, flechas e lanças, assim como seus ancestrais. Para justificar seu trabalho criticado à época, Flaherty disse que “um cineasta deve muitas vezes distorcer uma coisa para pegar seu verdadeiro espírito”. Há controvérsias.

7 - Limite
(Brasil, 1931)
De Mário Peixoto.

O único brasileiro da lista é considerado por muitos um dos melhores filmes já feitos no País. Conta a história de cinco pessoas que sobreviveram a um naufrágio. O filme causou polêmica na época de seu lançamento e chegou a ficar décadas sem ser exibido, por conta de cenas que envolviam extrema violência e a história que retratava adultério, impunidade em um crime e alcoolismo. Foi recuperado nos anos 1970, ganhou status de Cult brasileiro e hoje é aclamado por muitos fãs do cinema.

+“Limite” faz parte da World Cinema Foundation, entidade fundada por Martin Scorsese para preservação de peças raras e importantes para a história do cinema. Há relatos de que houve uma confusão no Cine Capitólio na primeira exibição do filme, em 1931, inclusive tendo depredação do local. Apesar da recepção positiva, Mário Peixoto nunca conseguiu realizar outro filme, se entregando a um momentâneo ostracismo para se tornar lenda décadas mais tarde.

6 - O Nascimento de uma Nação
(The Birth of a Nation, 1915)
De D.W. Griffith.

Controverso, caro e longo (3 horas e 10 minutos!!!), “O Nascimento de Uma Nação” foi o mais grandioso filme feito na então recente história do cinema. D.W. Griffith, um dos fundadores da United Artists mais tarde, levou às telas a história do livro The Clansman, que narra a Guerra de  Secessão nos Estados Unidos e a guerra entre duas famílias – uma do norte e uma do sul. O filme causou polêmica por levantar a bandeira da Ku Klux Khan e por mostrar os negros (atores brancos pintados de preto) como inferiores e sexualmente agressivos.

+ Fez um enorme sucesso comercial para a época, tendo custado a gigantesca bagatela de US$ 100 mil, valor altíssimo para 1915. Foi o primeiro filme a romper a casa dos US$ 10 milhões em bilheteria, permanecendo como o filme mais rentável até o lançamento de “Branca de Neve e os Sete Anões”.

5 - Nosferatu 
(Nosferatu, eine Symphonie des Grauens ,1922)
De F.W. Murnau.

Um marco do expressionismo alemão, é também um dos pioneiros em receber processos por violação de direitos autorais! Isso porque a obra é baseada em “Drácula”, de Bram Stoker, mas a família do autor não liberou a autorização para filmagem. Murnau mudou os nomes e algumas localidades, mas a essência da história é basicamente a mesma. Usando as técnicas do expressionismo, uma das principais correntes cinematográficas, “Nosferatu” se tornou também o principal filme de vampiros, virando referência para vários outros, desde “Entrevista com o Vampiro” à saga “Crepúsculo”. Só pra constar, a ideia de que um vampiro é morto pela luz do sol foi criada nesse filme.

+ Por conta do processo de direitos autorais, várias cópias foram destruídas por ordem da justiça, mas algumas foram salvas e reexibidas apenas após a morte da viúva de Bram Stoker. A única cópia completa em película está em poder de um colecionador alemão.


4 – Viagem à Lua 
(Le Voyage dans la Lune ,1902)
De George Méliès.

Outro pioneiro, desta vez no campo da ficção científica. “Viagem à Lua” do ilusionista/diretor francês George Méliès é um marco da narrativa moderna, contando a história de um grupo de cientistas que parte em direção à Lua para descobrir como é o espaço e a vida por lá. Vida, sim, pois apesar de hoje sabermos que a Lua é inabitada, o filme retrata alienígenas que vivem por lá, sendo por isso considerado também o primeiro filme que fala de alienígenas.

+ Curiosamente, “Viagem à Lua” também pode ser considerado como uma das primeiras vítimas da pirataria. Explico: Méliès pretendia lançar comercialmente o filme nos Estados Unidos, pra ganhar mais dinheiro com ele, mas cópias foram feitas secretamente pelos técnicos de Thomas Edison e distribuindo por todo o País. O filme fez sucesso, mas Méliès decretou falência.

3 - O Encoraçado Potemkin
(Bronenosets Potyomkin,1925)
De Sergei Eisenstein.

O filme da famosa cena em que um carrinho de bebê sai rolando por uma escadaria. “O Encouraçado Potemkin”, obra-prima de Sergei Einsenstein, é lembrado sempre por suas técnicas de montagem, um marco também na época, além do uso dos efeitos especiais. O filme conta a história de um motim de marinheiros no Potemkin, um navio de guerra de 1905. Apesar da história isolada, o longa acabou se tornando um arauto universal conta a injustiça e a opressão.

+ Apesar de hoje ser famosíssima por conta de sua montagem, a cena na escadaria de Odessa não estava no script original. Ela foi concebida somente durante a produção e mantida na versão original.

2 – Luzes da Cidade
(City Lights, 1931)
De Charlie Chaplin.

Só a filmografia inteira de Charlie Chaplin merecia destaque em toda a era do cinema mudo, mas “Luzes da Cidade” é frequentemente apontado como o melhor de todos eles. É também o filme em que mais pessoas lembram do personagem Vagabundo (ou Carlitos, como alguns conhecem). No filme, o Vagabundo se apaixona por uma florista cega que passa sérias dificuldades financeiras e, para ajudá-la, ele irá passar por diversas situações. Um dos clássicos da comédia americana que encantam até hoje.

+ Quando “Luzes da Cidade” foi feito, o número de filmes mudos tinha caído consideravelmente, mas Chaplin insistiu em realizar a obra sem diálogos. Ele mesmo compôs a trilha sonora do filme, que é sincronizada à película e, portanto, o filme não é exatamente mudo (assim como “O Artista”, por exemplo). Mas o detalhe não importa hoje e também não importou na época, visto que o filme foi aclamado por público e crítica.

1 - Metrópolis
(Metropolis, 1927)
De Fritz Lang.

Outro grande expoente do cinema alemão, “Metrópolis” se tornou referência principal entre quase todos os filmes de ficção científica realizados desde então. O enredo da trama é ambientado no século XXI, em uma cidade governada por um grande empresário, com os trabalhadores sendo escravizados por máquinas. Uma jovem, Maria, se destaca entre os trabalhadores, incitando-os a lutarem pelos seus direitos. Foi o filme europeu mais caro da época e quase levou seu estúdio à falência. O filme virou referência explícita em filmes como “Matrix”, “Star Wars” e “V de Vingança”, e em clipes musicais como o “Express Yourself”, da Madonna. “Metrópolis” também teve exibições especiais em várias partes do mundo, com uma orquestra executando a trilha ao vivo enquanto o filme era projetado. Em 2008, foram reencontrados 30 minutos de metragem original e inédita na Argentina, e essa  deve ser restaurada e acrescentada à versão conhecida do filme, para posterior lançamento em DVD.

+ “Metrópolis” era um dos filmes favoritos de Adolph Hitler. Tanto que ele convidou Fritz Lang para dirigir alguns filmes em campanha do partido nazista. Para fugir dos planos de Hitler, Lang se encaminhou para Paris, onde produziu alguns filmes de conteúdo anti-nazista, se mudando logo depois para os Estados Unidos.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Andy Serkis e Planeta dos Macacos: valia indicação ao Oscar?

 

"Acredito que seja o momento certo para tentar uma indicação a Andy Serkis como Melhor Ator coadjuvante, mesmo que o rosto dele não apareça em momento algum no filme. Sua interpretação está lá, e iremos divulgar isso de maneira pesada". Essas são palavras de Tom Rothman, presidente da Fox, fazendo campanha para a indicação de Serkis ao Oscar e a outras premiações. Como todos sabemos, isso não aconteceu.

O problema a se discutir aqui é se interpretações de personagens construídas com captura de movimentos são consideradas atuações. Andy Serkis foi o responsável por dar vida a Ceaser, o macaco principal de “Planeta dos Macacos – A Origem”, porém ele não aparece no filme. O chimpanzé foi construído digitalmente, inclusive com traços adicionados por computador que não correspondem apenas aos movimentos de Serkis, embora a essência do personagem e o trabalho de pesquisa sejam méritos do ator.

Campanha da Fox

A mesma polêmica surgiu em 2001, quando o mesmo Serkis estava no centro da discussão entorno de Gollum/Smeagle, personagem da trilogia “O Senhor dos Anéis” também interpretado por Serkis através da captura de movimentos. Gollum era digital ou fruto da “atuação”? E quanto ao King Kong de Peter Jackson, os Na’vi de “Avatar” e os personagens de “A Lenda de Beowulf”?

Claro que para a Academia do Oscar nada disso importa. Captura de performance não é considerada atuação. O curioso é que também não é considerada animação. Prova disso é a não indicação de “As Aventuras de Tintim” para a categoria de Melhor Animação. Se não é animação e não é atuação, a captura de performance é o quê?

Essa discussão deve se desenvolver no futuro à medida que a técnica for mais utilizada e aprimorada. Na minha opinião, Ceaser é o resultado de um esforço conjunto de equipe técnica com a atuação de Serkis. Óbvio que o que vemos traz os movimentos e a essência do ator, mas não se sustenta sozinha. Porém, é um tanto quanto injusto comparar o seu trabalho ao de atores que transmitem emoção sem nenhum auxílio técnico, como Christopher Plummer, Max Von Sydow e Nick Nolte, mesmo que nenhum deles tenha interpretado um macaco digital.

Ah, vale lembrar que "Planeta dos Macacos - A Origem" foi indicado ao Oscar de Efeitos Especiais, talvez fazendo jus a toda essa parafernalha tecnológica.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Histórias Cruzadas

The Help
(EUA, 2011) De Tate Taylor. Com Emma Stone, Viola Davis, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Octavia Spencer, Sissy Spacek, Cicely Tyson e Allison Janney.

Não dá pra dizer que “Histórias Cruzadas” não seja um bom filme. A produção é sofisticada, a história é feita pra conquistar qualquer um e as atuações (sem exceção) estão ótimas. Não surpreende o filme ter ganhado o prêmio de Melhor Elenco no Screen Actors Guild Awards, do Sindicato dos Atores americanos. Com momentos que variam do riso às lágrimas, o filme é leve e, por tratar de situações facilmente encontráveis no mundo real atual, por mais que o filme se passe nos anos 1960, a identificação é automática. No entanto, “Histórias Cruzadas” é um filme preguiçoso e um tanto pretensioso. Apoia-se em bons elementos que fazem parte do mais puro manual de clichês de como fazer filmes, sem se aprofundar nos sentimentos dos personagens, deixando tudo em uma camada superficial e estereotipada. Talvez tenha sido esta a intenção de Tate Taylor, dirigindo seu primeiro filme relevante: marcar personagens pelo estereótipo para facilitar a identificação e aceitação da história. Afinal, estamos falando de uma ferida aberta na sociedade americana, a segregação racial. Porém, parece que ele apenas tocou na ferida de leve para passar o mercúrio-cromo por cima logo depois.
 
Na cidade de Jackson, Mississipi, a jovem Eugenia “Skeeter” Phelan se vê no meio de um dilema quando percebe não ser uma moça dos padrões da sociedade em que vive. Suas amigas de colegial já são donas de casa e refletem um temperamento arrogante e mesquinho típicos de uma classe média americana dos anos 1960. Skeeter não apenas quer ser independente como enxerga o mundo em que vive de outra forma. Ela não partilha dos mesmos ideais de segregação racial que as “amigas” possuem e acha que negros e brancos podem conviver integradamente na sociedade. Quando consegue um emprego em um jornal para escrever sobre assuntos domésticos, Skeeter se aproxima de Aibeleen, empregada de uma de suas amigas e acaba descobrindo a intrigante história da mulher que não sabe fazer outra coisa a não ser empregada doméstica. Assim como Aibeleen, outras empregadas negras passam por situações em que são obrigadas a conviver separadas, justamente pela cor de suas peles. É aí que Skeeter decide escrever um livro, mostrando o dia a dia dessas empregadas e o ponto de vista delas sobre o mundo. Porém, o medo de revelar esses segredos que apoiam a integração dos negros acaba complicando a convivência das empregadas com seus patrões. Aibeleen, porém, cansada dos abusos e idiotices que atura no trabalho, decide firmar posição e levar o projeto do livro adiante.
 
O bom de “Histórias Cruzadas” é mesmo o elenco. Viola Davis merece a indicação ao Oscar por sua interpretação de uma Aibeleen sofrida e batalhadora. Cada suspiro, cada olhar e atitude da atriz denota o peso de sua personagem. Assim como Viola, outras atrizes do elenco dão o seu melhor nas atuações. Bryce Dallas Howard talvez tenha feito o melhor personagem de sua carreira, como a vilã do filme Hilly Holbrook. Octavia Spencer como a amiga de Aibeleen, Minny, é o alívio cômico da trama, embora também saiba dosar momentos dramáticos. Jessica Chastain, se afastando da personagem serena de “A Árvore da Vida”, interpreta a maluquinha Celia, que é rejeitada pelas amigas por ser um pouco mais excêntrica, embora os motivos de sua exclusão fiquem mais claros conforme o filme avança. E Emma Stone, a desajustada Skeeter, verdadeira protagonista da trama, prova a força das mulheres da época, que batalham pela independência sem deixar de lado a feminilidade.


 
Fiz tantos elogios às atuações porque são elas que sustentam um roteiro óbvio e maniqueísta.  O filme não tem medo de apelar para as lágrimas a todo momento e delimita claramente quem é do bem e quem é do mal. Mesmo as reviravoltas são meio sem pé nem cabeça e a trama se prende mais aos eventos que envolvem uma torta do que no drama pessoal de Aibeleen e das outras empregadas. O riso vem fácil, as lágrimas caem diante do cenário triste que o diretor pinta sem dó e o filme convence, apesar de tudo. Faz o espectador refletir, pensar e se indignar na medida certa, embora haja exageros em algumas cenas. Porém, a trama é rasa, não tão digna de Oscar de melhor filme, por exemplo. Um grande clichê bem filmado, um bom filme, divertido, com boas atuações. Um ponto positivo para falar sobre segregação racial, mas que podia ser mais relacionado ao que ele mesmo se vende.
 
Nota: 7,5

*Indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Atriz (Viola Davis) e Melhor Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain e Octavia Spencer).


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres

The Girl with the Dragon Tattoo
(EUA/Suécia, 2011) De David Fincher. Com Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Joely Richardson e Robin Wright.

Não surpreende que a versão Americana para o primeiro livro da trilogia Millenium, escrita por Stieg Larsson, tenha ido parar nas mãos de David Fincher. Parece que foram feitos um para o outro. O suspense e o clima de investigação estiveram presentes em outros exemplares da filmografia do cineasta como “Seven – Os Sete Crimes Capitais” e “Zodíaco”. A mesma aura é transportada para outros longas como “Clube da Luta” e até “A Rede Social”. Já adianto que não li o livro e não assisti à adaptação sueca, mas não sei se precisarei. “Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” é surpreendente e não deixa a peteca cair nem um instante. Os méritos, além do diretor, também vão para o roteiro tratado por Steve Zailian, a fotografia de Jeff Cronenweth e a atuação mais do que brilhante de Rooney Mara, que fez com que Lisbeth Salander entrasse de vez para o rol dos personagens mais marcantes do cinema*.

O jornalista Mikael Blomkvist é contratado para investigar o desaparecimento de uma menina há mais de 30 anos, após uma reunião de família. Suspeitos não faltam, todos membros da mesma família. Mikael se vê tentado a investigar porque a sua recompensa seria a recuperação da Millenium, a revista onde trabalha e que está perdendo credibilidade e lucro, após uma matéria desastrosa, escrita pelo próprio Mikael. No meio do caminho, o jornalista irá cruzar o caminho de Lisbeth Salander, uma moça de visual gótico, órfã, considerada mentalmente instável e que está sob a tutela do estado. Porém, Lisbeth é uma hacker de mão cheia e irá se juntar a Mikael para desvendar o mistério que se torna cada vez mais sombrio à medida que eles vão descobrindo novas informações.

“Os Homens que Não Amavam as Mulheres” prende a atenção desde o início da projeção, com os créditos iniciais estilizados. O roteiro ágil permite ao espectador não perder nenhum detalhe (e olha que são muitos, 158 minutos!) tanto da investigação como da conturbada vida de Lisbeth, interpretada com maestria por Rooney Mara. A atriz entrega uma personagem que vai além das expectativas, claro, fruto da mente de Stieg Larsson, mas com uma personalidade e qualidades que são méritos dela. Mara se despe de qualquer pudor e não se incomoda em chocar com a sua personagem, agindo de forma muito natural em frente às câmeras.
O protagonista Daniel Craig e todo o elenco merecem destaque, porque todos conseguem atuar com um sotaque sueco – não sei como é o sotaque de um sueco falando inglês, mas acredito que seja muito parecido com o que é visto na tela, ou é isso que eles conseguem nos fazer acreditar e isso é o mais importante. A trilha sonora da dupla Trent Reznor e Atticus Ross, a mesma vencedora do Oscar por “A Rede Social”, faz toda a diferença e pontua com precisão os momentos de suspense.


David Fincher mais uma vez ousa com uma direção sem medo de chocar a plateia, embora saiba ser comedido em cada sequência talvez mais explícita. O filme caminha muito bem até o momento pós-clímax, no qual um desfecho meio mirabolante perde o ritmo e se torna um pouco enfadonho, mas nada que comprometa o resultado final. Stieg Larsson morreu logo após a publicação do terceiro volume da trilogia Millenium (que certamente irá inteira para as telas por mãos americanas, sem dúvida) e infelizmente não pôde ver o sucesso que sua obra adaptada tem feito, tanto com a cópia sueca quanto com a americana. Porém, manter o espírito presente nos livros é a melhor maneira de homenagear o autor.
Nota: 9,5


*Vale lembrar que Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da trilogia sueca, já havia conseguido amplo reconhecimento pelo papel, tanto que chegou a ser considerada para a versão americana. No entanto, este que vos fala não assistiu a essa versão e entende que o filme americano tem um alcance muito maior (triste, mas é verdade).
**Indicado a cinco Oscars: Melhor Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Mixagem de Som, Edição de Som e Montagem.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Os Descendentes

The Descendants
(EUA, 2011) De Alexander Payne. Com George Clooney, Shailene Woodley, Beau Bridges, Robert Forster, Mathew Lillard e Judy Greer.

Candidato forte ao Oscar, “Os Descendentes” é mais complexo do que se imagina a primeira vista. Já pelo pôster, parece que veremos um novo filme com George Clooney sendo... George Clooney. A verdade é que o ator parece menos do que é – em um bom sentido. Sim, estamos acostumados a vê-lo como galã, bom vivant, etc., mas Clooney tem conseguido cada vez mais papeis desafiadores, o que o coloca com um diferencial entre os atores de sua geração. Claro, Clooney sempre é Clooney e todos os seus papeis lembrarão sempre o Danny Ocean de “Onze Homens e um Segredo”, a melhor versão de Clooney sendo Clooney (a segunda melhor é aquele comercial do Nespresso). Mas, ao analisar alguns de seus filmes recentes, como “Syriana”, “Amor Sem Escalas” e “Os Homens que Encaravam as Cabras”, percebemos um amadurecimento gradual do galã para este senhor, pai de família que vemos em “Os Descendentes”, o que faz com que o desempenho de Clooney seja o principal motor do filme, aliado a um roteiro bem amarrado, adaptado por Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash.
 
O advogado Matt King se vê as voltas com uma situação complicada em sua família. Sua esposa sofreu um acidente de lancha, o que a coloca em coma profundo. Totalmente deslocado de questões domésticas, ele traz para casa a filha mais velha, Alexandra, para ajudá-lo com a filha mais nova, Scottie. Alexandra estava em uma situação complicada com a mãe, assim como estava o casamento de Matt, que só entende a gravidade da situação quando a filha revela que a mãe o estava traindo. No meio dessas questões, Matt precisa decidir sobre uma partilha de terras na sua família que pode mudar o destino do Havaí, enquanto os médicos deixam sua esposa sem esperanças, dizendo que terão que desligar os aparelhos que a mantém viva. 

 Clooney transparece bem o turbilhão de emoções que seu personagem passa enquanto precisa colocar a família em ordem. Basicamente, é nas costas dele que o filme é carregado, uma vez que é do ponto de vista das emoções de Matt King que irão se desenrolar os outros personagens da trama: a filha adolescente com a rebeldia natural, a filha mais nova, o sogro que enfrenta seus problemas pessoais com a mulher, a melhor amiga da esposa que esconde o segredo da traição. Os coadjuvantes são a escada perfeita para a condução de Clooney, cujo personagem tem que ser o pilar para todos os outros, quando ele mesmo está caindo aos pedaços com tantas informações.
 
Já o roteiro aborda muito bem as questões sobre como reagir diante de tantas adversidades, sem medo de ser original e não cair em clichês, como a pena natural que todos sentimos diante de um paciente em coma. O filme usa do humor negro, não como deboche ou crítica, mas como simples instrumento narrativo, como quando o amigo de Alexandra, Sid, ri das coisas sem sentido que a avó da menina diz, uma vez que ela tem Alzheimer. O alívio cômico (e o fato de o filme se passar no Havaí, repetindo o clichê criticado pelo próprio filme) impede que “Os Descendentes” se torne uma história totalmente triste e chata.
 

Alexander Payne, conhecido por “Sideways”, construiu um drama familiar ousado, mas que poderia acontecer em qualquer casa do mundo – inclusive no Havaí, repetindo mais uma vez o clichê do filme. E mesmo o final, que alguns podem achar meio banal, inclusive eu, tem o seu propósito de ser daquele jeito, já que o principal argumento do filme é que esse é mais um problema da vida, mas que tudo se resolve com o tempo... até que outra turbulência aconteça.

*Indicado ao Oscar de Melhor Filme, Ator (George Clooney), Direção, Roteiro Adaptado e Montagem.
 Nota: 9,0



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Meia-Noite em Paris

Midnight in Paris
(EUA, 2011)De Woody Allen. Com Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Michael Sheen, Allison Pill, Tom Hiddleston, Kathy Bates e Carla Bruni.

Quando “Meia-Noite em Paris” estreou, este que vos fala estava ocupado demais com compromissos acadêmicos – leia-se, morrendo na monografia – e não pôde resenhar a crítica do filme. Em consolo, a pesquisa da monografia, era justamente sobre cinema, então dá pra relevar um pouco. Desculpas à parte, a questão é que “Meia-Noite em Paris”, o Woody Allen mais recente, estreou de mansinho e, de repente, já era um dos filmes mais queridos do diretor. À época, uma das coisas mais extraordinárias era ter Carla Bruni, a primeira-dama francesa, no elenco. Só depois de apreciado devidamente é que nos deixamos levar pelos encantos da cidade, filmada de maneira belíssima por Allen. Além disso, o filme evoca uma época de ouro da cultura e da arte, relembrando tempos passados que hoje, mesmo quem nunca os viveu, trazem na memória com saudosismo.

O escritor Gil está em Paris com a família de sua noiva a negócios. Ela quer discutir detalhes da cerimônia de casamento. Ele quer conhecer Paris e se deixar inspirar pela aura da cidade. Os dois têm temperamentos e gostos diferentes. Até que, em uma noite vagando sozinho pelas ruas parisienses, Gil embarca em uma carruagem que, estranhamente, o leva para o passado, junto do convívio de grandes pensadores e ídolos culturais dos anos 1920.  E aí somos levados pela discussão de qual época é realmente a melhor: aquela que fazemos ou aquela que já se passou. Gil fica literalmente dividido entre voltar para seus tempos atuais e ficar com a noiva ou permanecer em meio aos intelectuais do passado, especialmente ao se encantar pela jovem Adriana, uma entusiasta da Bélle Epoque. Isso sem ter certeza de estar vivendo uma fantasia ou a realidade.


A condução da trama traz aquele charme inegável de Woody Allen. O que “Meia-Noite em Paris” tem de diferente é exatamente trazer à tona questões que permeiam o espírito dos jovens mais intelectualizados de hoje em dia. Allen pinta Paris como a capital cultural do mundo de uma forma mais sóbria do que fizera com Barcelona alguns anos antes (em "Vicky Cristina Barcelona"). O roteiro, também de Allen, mistura os tons de fantasia e realidade com perfeição, com a Paris atual cheia de cores durante o dia e uma cidade mais boêmia à noite, quando vemos a Paris do passado.

Ao colocar tantos personagens brilhantes no roteiro, Woody Allen faz uma homenagem a todos os grandes pensadores e artistas que impactaram e inspiraram não somente a ele, mas a vários criadores do século XX. Vemos nas telas Salvador Dalí, Luis Buñuel, F. Scott Fitzgerald, T.S. Elliot, Henri Matisse, Ernest Hemingway e Cole Porter, isso pra mencionar alguns. Fosse nos dias de hoje, juntar todo esse time em um único filme daria trabalho. O diretor consegue colocá-los todos em um mesmo plano, sem destacar ninguém a não ser o protagonista, Gil, interpretado por um Owen Wilson mais maduro do que de costume, embora preserve os traços cômicos que são necessários para o papel.


“Meia-Noite em Paris” foi indicado a quatro Oscars (Filme, diretor, roteiro original e direção de arte). O último que Woody Allen levou foi o de melhor roteiro em 1987, por “Hannah e Suas Irmãs” e a última indicação veio em 2006, na mesma categoria, por “Match Point”. O filme não é o favorito nas categorias que disputa, mas recolocar o gênio Woody Allen (que, honestamente, não precisa de prêmios pra ser reconhecido) no páreo é uma lembrança boa de que o diretor está tão bem como nunca talvez estivesse.

Nota: 10


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A trajetória de "O Artista"


Estamos em 2012. Falando de um filme lançado em 2011 e gravado em 2010. Ou seja, mais de 80 anos depois do lançamento do primeiro filme com som sincronizado. “O Cantor de Jazz” (1927) ajudou a se popularizar rapidamente o que se convencionou chamar “talking pictures” ou “filmes falados”. Nem precisa dizer que isso revolucionou o cinema, mudando toda a forma de se fazer filmes. Aí, entra 2011 e “O Artista” consegue chamar a atenção fazendo tudo da maneira antiga. Sem som e em preto-e-branco.

Essa é a grande surpresa da temporada de premiações. Claro que “O Artista” chama a atenção pelo carisma dos personagens e pelo brilhantismo do roteiro, uma homenagem à gênese do cinema como o conhecemos. Mas quem poderia imaginar que, em pleno século XXI, as pessoas fossem se derreter por um longa-metragem mudo e em preto e branco?

Pois é isso que aconteceu. E não só isso, “O Artista” é o favorito no Oscar e já arrebatou uma série de premiações. O Directors Guild of America (DGA), o sindicato dos diretores, deu o prêmio de melhor diretor para Michel Hazanavicius. No SAG, o sindicato dos atores, Jean Dujardin tirou o prêmio de melhor ator de George Clooney. Ele já havia ganhado o Globo de Ouro de Melhor Ator de Comédia, assim como Clooney levou o de ator dramático.

“O Artista” também recebeu diversas indicações ao BAFTA, ganhou uma penca de prêmios, incluindo a Palma de Ouro de Melhor Ator para Jean Dujardin. A grande concorrência do filme é mesmo “Os Descendentes”, mas, com dez indicações ao Oscar (Filme, Ator, Atriz Coadjuvante- Bérénice Bejo, Direção, Roteiro Original, Direção de Arte, Fotografia, Figurino, Montagem e Trilha Sonora) e tanto carisma por onde passa, será muito difícil se “O Artista” não se sagrar campeão em quase todas elas.